Vai.

Diz que ainda acredita na queda em tanta letra como salvação de tua cidade. Reparte os trapos secos antes colocados no lugar do que faltava no peito, tão cansado já, por tão pouco.

Respira, aceita nosso engano.

As luzes separando em muitas a rua, ferro vermelho entre você e eu. Mesmo com o céu aberto, o vento que pedi. Não vou chegar hoje, nem mais.

Tudo deixado por dentro vai encontrar caminho ao lado desse desespero – a vontade de cuspir fúria de cada tempo guardado. Vai, vai seguir. As coisas voltam a seu lugar depois da nossa passagem. Eu, eu fico por aqui.

Li mais do que devia, escrevi longe do que precisava. Pele fina quebradiça sobre água escura. Mas me deixei aí. Palavra.

Acredita em tanta letra. Como salvação.

Eu que pensei construir muralhas a cada ano, hora, sangue escorrendo, suor no seu peito. Mas nada forma memória e pouco de mim é proveito. Fico esquecido em pastas dos conselheiros no trabalho. Uma piada antiga e constrangida. Não tenha medo em perguntar, realmente não estou aqui. Você beija uma sombra à noite – os traços feitos com a mão esquerda, reumática. E sonho com frascos de soro, alimentação intravenosa. Com algodão limpo para banhar na febre. Susto na madrugada e nossa despedida antes do tempo. Acordo lembrando o final da vez. Para dormir de novo buscando novas mortes.

Mell

Tem coisas que eu não sabia como dizer. Aquelas que via em sonhos, erguidas sobre meu desejo de estar. Pedras do caminho que quero seguir. Às vezes sou a estranha que me encontra pela primeira vez e tento ajudar nessa busca insana. Das minhas partes espalhadas em tantos lugares, durante a noite. Do meu espelho, que sentia vivendo em algum canto. Alguém que haveria de me fazer a mesma casa que abandono enquanto durmo.

E quando encontrei você, senti meu próprio toque, o calor do mesmo corpo que era o meu. Seu cheiro, olhos me convidando a uma imensidão que eu desconhecia. Senti meu chão, suas lágrimas em meu cabelo. Respirei o mesmo ar que você – era só nosso, ninguém na Terra habitava o mesmo lugar. Abracei certezas que outras mulheres desconheciam. Encaixando suas partes em mim eu me reconstruí. De braços, coração. Do peito e do rosto remontei meu andar. Seu sorriso pôs a alma em fuga, para minhas partes dos sonhos, com um porto para o qual voltar.

E soube então que nasci com você das escritas dos deuses, éramos irmãos das montanhas, do infinito acima. Fui moldada no mesmo pedaço de terra que você, minha vida soprada ao mundo junto à sua. Quando lhe encontrei, era retorno ao berço. Os deuses nossos pais haviam determinado a separação de nosso corpo único, a ausência da minha metade era o Amor. Quem eu buscava, vislumbrado em esquinas, de relance, nos mundos que eu visitava enquanto dormia. Encontrá-lo era recuperar a substância deixada em minhas ausências. Quando vi você, me vi inteira de novo. E forças que movem a vida abençoavam meu encontro com o Amor. Minha metade perdida. Era toda, em mim, do nascer até seus beijos.

Mas dos homens que buscam conforto na natureza recebemos estilhaços cortando nossa carne junta. Em quem eu via irmã, filha e mãe, crescia a sombra terrível dos desmandos que nos deixaram sós. O mundo regurgitava nossos corações por medo e rejeição. Não havia mais futuro e desejo – com tanta negação buscando encontrar lugar em nosso divino nascimento eu vi meus lábios costurados. A queda de tanta história, de força e verdade. Dor sem ventre, a inveja que desmontava suas partes em mim, também negava a própria crença. Ainda, erguida, me fiz barreira à destruição.

Sou dada ao nascer do dia – meu é o poder do nascimento. E do rasgo nos mantos de sombras. E assim libertos são meu coração e o amor. Assim permaneço voltada para as águas que inundam cada abraço nosso. Eu queimo com graça. Danço as linhas do nosso futuro, enterro seu desejo em meu peito.

De meus pais eu sei a verdade. Por onde seu mundo vem ao meu. Luto por nosso canto, amor, é nosso direito. Espadas e espelhos que somos de nós. A nos faltar o sol, ainda nos abençoa seu brilho. E o calor você pode encontrar em mim, na pele que já é tua desde o brotar das coisas. Como são guias na minha escuridão os roucos da sua voz. Como é a lei escrita por tuas mãos. Darei à luz outro mundo, eu mudo a realidade ao redor. E deixo em cada lugar que crio minha marca, para que você saiba de mim. O doce do meu nome.

(para Mell e Victor)

Sempre desisti do que nunca foi meu

E era sempre difícil para mim admitir certas coisas. Que precisava de uma raspa ao menos de felicidade para encaixar as peças com sentido. Mesmo reorganizando a memória a meu favor, saltavam como espinhos todos os meus enganos. Era custoso também mudar de idéia depois de ter ido embora e ultimamente tenho feito isso por muitas e muitas vezes. Agora mesmo, desço as escadas do apartamento dela, pronto para minha melhor falsa postura de “não me importo com a chuva a ensopar as roupas”. Mas me importo demais. Piso na calçada de lixo e água suja e o peso do que visto, agora molhado, faz o possível para competir com meu fracasso moral. Vou em frente, ignoro o olhar de quem passa me analisando dos pés à cabeça, e caminho até o ponto de ônibus, insistindo em pousar os pés nas poças mais horrendas possíveis. Faço graça comigo, digo que minha ególatra punição é absolutamente válida, que não sou só mais um menino crescido à base de Nescau e biscoito waffer. Mas eu sei, ela sabe, e provavelmente o sorriso torto do motorista do ônibus também, o quanto de ensaio gastei na formulação da minha pose, do meu duplo que passa todos os dias tentando me convencer de que, verdade, sou eu.

“Não vou sentir sua falta… não vou te ligar”, ou as dimensões castanhas dos olhos dela ou seus lábios entreabertos convidando a próxima frase, algo retalhava mais meu coração do que o que ouvia. “E nós dois sabemos o motivo. Tudo isso que nós temos feito, todo o tempo que eu passei livrando você das bobagens todas que você carregava… ah, sabe, nada mesmo vai importar mais, agora. Você continua decidido a ser o grande herói solitário, se esforça demais para ser o grande perdedor, o maior guerreiro.” Planejei tanto, mas tanto, minha cara de impassível segurança que esqueci de pô-la em prática agora. Provavelmente me entreguei, pelo olhar ou algum tremor nas mãos. Porque ela percebeu e abaixou a cabeça e suspirou. Cansada. Eu também sentia cansaço, mas buscava esperança nos silêncios do que ela dizia. Cada hesitação me fazia enxergar cores diferentes na sala. Nas pausas, a mesa cinza. As palavras saltavam da cortina vermelha, repousavam no sofá verde. “Me desculpa, acho que cobro demais de você, às vezes…”, e assim meus olhos buscaram freneticamente algo dourado no apartamento. Não havia. “Mas a verdade é que não consigo mais. Nunca vou ganhar essa luta com você. Acho que nem você vai ganhar isso… você sabe, né? Consegue ver como luta contra você o tempo inteiro?”.

Disse que sim com a cabeça na hora, mas não sabia. Ainda não sei, neste banco de ônibus molhado. Molhado por minhas roupas sem marca, meu casaco preto. Minhas calças puídas nos lugares certos para simular o uso constante. O caderno no bolso de trás agora borrado pela chuva. Tentei ler mesmo assim. Ler minhas anotações dos últimos dois anos, meu amor por ela guardado no único lugar onde me permitia ser sincero. Eu. Páginas e páginas com a descrição da sua pele, o inventário dos objetos na minha casa que guardavam a memória do toque dela a cada vez que ia embora. Minhas confissões de amor, minha torre infinita de admiração por seus dedos, sua voz, cabelo molhado pela manhã. O registro do que talvez fosse tudo que ela esperava de mim, tudo que ainda pudesse fazê-la acreditar que eu não estava distante, nunca estive. Sempre fui fraco demais para abandonar a imagem que elaborei de mim para mim. Sentia agora minha queda agarrado ao duplo, ao meu fracasso, que passei a vida construindo cuidadosamente. Achava bonita a imagem, trágica, heróica. Deixei o caderno borrado se apagando no banco. Saltei no meu ponto. Não havia mais nada a registrar.

Acordei com uivos terríveis, tenebrosos mesmo. Mas não era Irmão, meu velho labrador. Lá estava ele, no mesmo lugar, sentado na grande e desgastada poltrona de couro, olhando para mim. Como em quase todas as manhãs. Ou madrugadas. Só trazia de diferente o próprio olhar. Aberto, amplo, como que buscando me desmontar em tirinhas de papel. Estava frio no quarto e em dias assim Irmão sempre vinha para a cama. Dessa vez, parecia alerta e foi o que me pôs de pé. Tirando o gosto pela poltrona imunda, Irmão sempre foi mais sábio e atento do que eu. Foi o que me tirou da cama, repito. Isso e os uivos.

Aproveitei-me do chão frio para ir despertando, do quarto, pelo corredor e até a sala. Tinha ainda alguma sujeira do encontro de duas noites atrás, embalagens, garrafas. Pratos sujos em cima da estante de livros. Livros que eu ainda não havia arrumado e deixava alguns sobre a mesinha do corredor, para reforçar minha promessa de pôr ordem em tudo aquilo. A cada nova semana eu colocava mais um exemplar ali, como se o peso de tanto papel enfim me empurrasse para as resoluções. Havia ficado com a grande casa do interior, a casa de férias, do retiro, após a morte de meu pai. Era tudo que me restava dele e ela guardava tudo dele. Dois meses e eu ainda sem saber o quer fazer com aquilo. Com as lembranças e os objetos. Até mesmo com a cidade. Não era ninguém ali, quando muito forasteiro olhado de soslaio no mercadinho. Mas aceitei a herança, deixei São Paulo, a grande. Esse era meu pai, meu desterro. O exílio me parecia a continuação de todos os nossos afastamentos e isso de certa forma me confortava. Esperava ainda encontrar meu pai em suas anotações, fotos. No fundo, aceitar cuidar da casa me fazia sentir como o grande redentor de nossa relação alquebrada. Assumi a missão com orgulho, espantando meus irmãos, pode deixar, dou conta. Mas estava falhando e, como disfarce, inventei as festas para encher a casa. Meus amigos abraçaram de pronto a chance de evitar por três dias a “correria”, e trouxeram seus ruídos. Com corpos e sorrisos pensei que ao menos a energia do lugar se manteria forte, limpa.

Mas as outras noites eram sempre da casa, seus estalos e poeiras. As outras noites eram só nossas, da casa, e também minhas e do Irmão. E gastávamos nosso tempo, tanto tempo, dormindo, comendo e visitando o mercado só quando realmente necessário. E assim a energia da casa seguia sendo a do meu pai. Com seus silêncios, seu pesar. Sua desaprovação era agora a disposição dos móveis, a pouca luz que entrava na casa durante o dia, sua espingarda exposta na parede da sala, em frente à porta. Detestava aquela arma, menos pelos dias em que meu pai tentara me ensinar a matar passarinhos. Mas muito por não conseguir sonhar direito meu entendimento com ele sabendo de seu apreço por aquele objeto. Era inteligente, meu pai. Duro e seco, de poucas palavras, mas ainda capaz de tiradas espirituosas em ocasiões insuspeitas. De alguns olhares doces dirigidos a mim, amor talvez, e essa possibilidade me confortava. Havia esperança ali, eu pensava. Não se empolgue, a arma respondia da parede.

Abri a porta e caminhei descalço até o quintal. Um de meus poucos prazeres descobertos nesses dois meses, caminhar descalço sobre a grama do jardim, às vezes na terra molhada, sob a árvore no meio do terreno. Não sabia de que tipo, não tinha ainda visto seus frutos, da natureza eu entendia muito pouco. A madrugada ainda se agarrava à noite, desesperada, e senti o frio do quarto ali também. O vento e a ausência de Irmão. Ele deveria estar ali, andávamos sempre juntos, Irmão me seguia ou seguia minha sombra. Sempre. Mas eu estava ali só, entre outras sombras, um novo frio. E o uivo, de onde eu não sabia. Mas fiquei um tempo fora da casa, olhando os desenhos escuros da vegetação, e então notei a exatidão daquele uivo. Ou o lobo ou o cão cantava o mesmo som, pelo mesmo tempo. Em intervalos regulares. Em algum curso que abandonei ouvi sobre como nós conferimos emoções e inteligência humanas às coisas da natureza que são na verdade potência, criação e força. Era exatamente isso que eu estava fazendo ali. Julguei ouvir tristeza naqueles uivos. Uma lamentação cansada, como o choro do luto, após dias de uma longa despedida anunciada. O definhamento de alguém querido, sabe? As forças minando a cada dia, a esperança desfalecendo. Sabia que aquela tristeza era minha, só podia ser, mas não sabia de onde. Estive com meu pai no hospital, mas só senti cansaço lá. Era o fim dele, e eu já não buscava mais nada. Para mim, era questão morta. Eu já não lutava mais, nem meu pai.

Em situações assim, em finais e fronteiras da vida, as coisas assumem um peso novo, ficam suspensas, mais leves. A percepção muda para refocar detalhes inúteis ou para aqueles mais importantes e que deixamos de lado por muito tempo. Era assim que eu me sentia, então e afinal. E por isso permaneci ali tanto tempo, com o uivo, o quintal e o frio que adensava. Contornei com o olhar as linhas de cada coisa à minha volta, solo, árvore, me voltei para a frente do terreno. Caminhei até o portão de madeira e pus nele a mão, ambos frios. O portão do meu pai, projetado e posto em pé por suas mãos de escritor. O portão era meu irmão também, também herdeiro da mesma ausência agora. Fiquei tirando lascas da madeira com a ponta da unha e foi aí que não ouvi mais o uivo. Ele e os ruídos do vento. O ar ainda girava, eu via as folhas dançando, mas não ouvia. O frio aumentou e me senti molhado. Senti falta de companhia, do Irmão. E me virei para a casa.

E, da porta fechada, meu pai me olhou.

E mesmo com meu coração me ordenando o terror, pois, eu estava certo, não sonhava, lembro que me incomodou mais a porta fechada. Eu a havia deixado aberta enquanto entrava no quintal. Mas eu a via, sabia, fechada naquele momento gelado. Fechada como? A casa não passara a ser minha, então? Os livros, as histórias? E, agora, por trás de seus vidros, embaçados por sua respiração, estava meu pai. Observando-me com olhos surpresos, temerosos até. Pensei em erguer a mão e acenar, era meu pai afinal, e tudo que fiz foi emitir um gemido baixo, choroso, que meu cérebro pensou ser um “olá”. Pude ver por trás dele, no canto da sala, Irmão com o uivo nos olhos. Aquela tristeza prolongada, exausta, encharcada pelo frio.

E, quando me aproximei tremendo, com medo da vida e da morte de meu pai, com meu peito nu e descalço na terra fria, ele ergueu sua arma de matar passarinhos. Disparou.

Eu, o invasor, morri ali.

Não tenho como lhe dizer exatamente como começou, mas é claro que tudo veio da rotina, longas viagens em um ônibus incapaz de ser confortável. As lembranças que tenho de espaços pequenos, de desespero claustrofóbico, vieram dela. A rotina.

Às vezes o percebia na minha frente. Tentei em ocasiões marcar o lugar ao meu lado, com a bolsa, suspensa na esperança de que em seu ponto ele pudesse ocupar o banco. Em certos dias olhava ao redor buscando suas partes nos vãos entre pessoas, perfumes, a ausência de silêncio das conversas gritadas a todos. Diariamente cúmplices da mesma história.

Seu rosto de traços delicados, gravados sobre pele macia e firme da forma que mais me encantava, talvez apaixonasse meu olhar no repouso da xícara de café, ao lado do escritório. Mas não me apaixonei por nada dele assim tão bonito. Bonito como propaganda, quero dizer, como promessa. O suco de minha saliva foi desperto pela marca em seu braço, grande, acidente de relevo eterno. A cicatriz na pele queimada fazia dança com uma tatuagem antiga e me emocionava toda vez que percebia sua decisão de não cobrir o ferimento com novo desenho. Era meu mapa das coisas que ele havia perdido, guardadas agora como lembrança e dor, que outras mulheres, por engano, achavam encontrar em seus olhos sempre gentis e plácidos. Sabia que minha atenção era percebida por ele. Não importava, era tão grande o desejo que o preço da exposição me fugia.

Eu, que sempre me orgulhava de meus gostos retos, boa moça de família na melhor escola do bairro, me envolvi com um prazer diferente daquilo que sabia de mim. A insistência da minha atenção nos aproximou após tantos e tantos outros dias partilhando o mesmo destino. Trocamos nomes, histórias e, por fim, telefones, do ponto final até o metrô.

Acho que é assim que posso lhe responder o que tanto você me olha desde que passei a comer com a mão, sempre a esquerda. Herdeira, de minha mãe, dos bons modos à mesa e à vida, autora do grande livro da boa etiqueta, fui reconstruída como glutona selvagem. Cada sabor e textura em contato com a pele, saliva purificando a ponta dos dedos. Água clara, sabões perfumados, mantinham minha pele macia e apuravam sua capacidade de conhecer pelo toque.

Em nosso amor podia ler tudo dele em seus braços seguros sobre mim. O toque liso e áspero, seda bruta e seca, alternando seu espírito com calor e suor. Deslizava meus dedos pela fronteira entre o que ele era antes e depois. As linhas da dor, do susto e do medo. Beijava a coragem com a qual exibia suas histórias, grimório entregue em camisas de mangas curtas.

A origem do meu desejo nunca soube. Não perguntei, não era um assunto entre nós. Só sabia o que minha mão conseguia registrar. Não importava tanto o nascimento de suas dores do que a forma como ele as carregava. E a doçura, os risos, a beleza de nossos dias encapsulados fora do tempo em seu quarto.

Depois dele li todo o meu mundo com a mão. A chuva, a terra. Meu alimento, meu corpo. Estico os dedos no frio da janela e busco imaginar minha pele aquecida na recordação de suas marcas.

Sou carne aberta agora, sangro e respiro na superfície.

Sobre Uma Tarde

O que fiz depois da primeira pergunta veio sem aviso. Todas as opções. Às claras, a resposta para ela – não dei a melhor. Os ombros aguardaram parados, segundos, quando me levantei. Ela sabe.

Escolhidos os passos, as paredes não estavam de acordo. A cadeira, branca – tive medo do que já era tão familiar.

Do pequeno repertório. Retiradas as linhas vermelhas, foram ditas. As frases que talvez não se repetissem. Por Vergonha.

Não iria voltar. Não voltaria se perdesse o ponto. Contava cada um deles no caminho do ônibus, já havia sido difícil chegar até ali. Não iria voltar. Rolava as palavras entre os lábios, murmurando, o que dizer? As citações de música, poesia, os grandes autores de todos os tempos – um ponto. Quando tudo ficou tão difícil, espremido entre dias ocupados? E incerteza quanto ao que mantinha guardado, o que era seu.

“Me perdoa?”

Torcer as mãos, revirar os olhos – cartas antigas gastas pelo uso. E que viessem! Ele deitaria e tudo pés sobre seu corpo. Erros, escolhas antigas, abuso e vergonha, uma parede para amparar as costas. Oh, mãe, o quanto dói e você não me disse isso, ninguém me avisou sobre nada, nada e só queria saber o porquê e fazer de novo, diferente, mais uma chance eu prometo, faço melhor e certo, não erro e presto – um ponto – atenção, tomo cuidado, acredita em mim, me perdoa?

No fim dos tempos, seria só mais um alguém. Mas era apenas mais um dia e a lembrança de tudo estava com ele. Recostou a cabeça no banco, olhos no teto. Tão pertinho, quando era criança não conseguia alcançar, lá em cima, agora posso e é nada importante. Apertou os olhos, esperando sentir algo parecido com aquela vontade de chegar onde não conseguia, longe, longe – sei fazer, olha! eu sei, de verdade, aprendi olha! pai?

Um ponto e as palavras certas esperando. Quem se atrasou?

Ela estaria lá. Esteve sempre com seus erros, aquilo que não mostrava a ninguém. E ela entendia. Segurava tudo por orgulho, mesmo com a pele rasgando, sentindo falta do que ia no peito, para fazê-la acreditar que era forte, sim, darei conta, nada tão grande assim, já vi antes e sei que acaba rápido. E um sorriso. Sabia que era para deixá-lo bem, fingir que acreditava, escondendo aquele pouquinho de dor que sentia. “Eu acredito em você”.

“Eu sei! Me perdoa?”

Todo aquele esforço era inútil, há algum tempo. Não lembraria das palavras, de nada. A força que tinha se resumia a sustento para suportar o que viria depois dos erros, de coisas mal resolvidas. Resignou-se imaginando que, na hora, faria direito. Sim, seria tudo correto, eu não posso estragar desta vez, não vou… Eu sei o que quero dizer, o que tenho que fazer. Não pode dar errado, quero tanto! por favor.

Um ponto. Outro.

Levantou-se, pouco antes da hora. Em pé segurava a barra do banco à frente, olhando a rua, a mesma rua. Muito frio, metal gelado, o motorista corre muito não posso perder o ponto – eu não volto aqui se passar não vou ter coragem não vou sentir tudo isso de novo, eu não saberia. Olhou para cima novamente. “Olha, tão pertinho agora!”

Encostou a mão no teto do ônibus. Ficou olhando a palma estendida.

“Eu posso, viu? Eu consigo!”

O ponto passara.

Acordei com sangue e muco nas mãos. Depois de milhões de mundos sonhados por segundo. Nossos rostos como espelhos enquanto nomes eram queimados em nossa pele, para que eu não me esquecesse. Estou abandonando meu único porto seguro, escolhi ser mais um náufrago no mar sem amor dos afogados. Não faz tanta diferença, já caminho por entre ruínas por tempos que não conto mais, e talvez um último mergulho me deixe recuperar o que mais quero de mim.

Nos sonhos dessa noite me cortei atravessando nossas barreiras, socando nossas portas. Tomei banho do suor de nossas quedas, no fluido das lutas abraçados. Molhado do que desejo em você. Fomos irmãos e senhores nas terras que vislumbrei. Você passou por mim na rua, era eu entre os cobertores sujos no chão. Repreendi você durante uma conversa, reconheci os olhos. Na respiração seguinte fomos um só. Calor e necessidade, a fúria e o desespero ao perceber que nossos abismos não se anulavam.

Sangrei cavando túneis para encontrar meus pedaços. Percebi que agora eles flutuam longe junto com tudo que deixei partir. Longe do meu chão, chegando no horizonte onde eu deveria estar. Restos que não são mais eu, talvez parindo outra pessoa que será feliz onde falhei em ser. Que terá meus sorrisos e minha graça, meus dedos tortos e fará você lembrar quem fui. Que lhe amará quando eu não poderei, ele será as rochas desabadas sobre sua cratera. Será o fim. Será a felicidade.

Quando esse eu nascer, reunindo as partes boas e alegres que deixei para trás, talvez então eu veja minhas mãos limpas. E sangrarei só por dentro. E beberei seus fluidos, até minha noite próxima.

Até que meu vazio se preencha com nosso amor, que deixei vagar. E eu, finalmente feliz por deixar de ser, me desfaça dentro de ti.

Eu disse a ela que media meu tempo pelas coisas perdidas, pelas mensagens que não li, enfiei a mão no bolso e peguei o aparelho de telefone. Passei fotos, apaguei coisas, tentei digitar o que sentia.

Meu trabalho voava de minha mesa, me atingido o rosto e tingindo o chão. De alguma forma parecia fazer todo o sentido aquilo estar ali. Tentei me convencer que essa idéia era auto-ironia, mas no fundo sabia ser inércia.

“Você não sabe droga nenhuma de tempo e respeito!” meu texto sobre comédia romântica nos anos 2000 pisado, “O que sabe é fingir que o pouco que você sente é muito e maior do que tudo mais! Seu idiota, entendeu?! Você é um imbecil que nunca vai mudar porque perde muito tempo achando que vale muito! Se fosse realmente alguém de valor não passaria a vida inteira jogando fora as coisas que lhe caem no colo! Não vomitaria suas cretinices em cima de tudo que fizemos!”, não registrei o choro como algo importante porque já o esperava, e não sabia se era artifício. Na verdade, não saberia medir o peso de todas as coisas oferecidas no momento, as lembranças. E sentia vergonha por não saber.

Então caíram o laptop, meu porta-lápis, nossas fotos sobre a estante. As coisas reencontraram seu lugar com o bater da porta e as chaves dela caindo no corredor. Sinal claro de quão longe eu tinha ido desta vez. Depois de um tempo desisti de esperar algo vindo de mim e ajoelhei para tentar ligar o computador e remexer as folhas. Passei minutos, ou não sei mais quanto, conferindo o que estava salvo no HD e o que eu tinha impresso, comparando as versões. Pesando minhas maiores mentiras e grandes truques. Apaguei tudo no laptop e fiz meu último gesto de amor a ela arremessando a coisa na parede. Os textos sobre nós guardei na gaveta.

O que sobrou eu queimei.