Eu disse a ela que media meu tempo pelas coisas perdidas, pelas mensagens que não li, enfiei a mão no bolso e peguei o aparelho de telefone. Passei fotos, apaguei coisas, tentei digitar o que sentia.

Meu trabalho voava de minha mesa, me atingido o rosto e tingindo o chão. De alguma forma parecia fazer todo o sentido aquilo estar ali. Tentei me convencer que essa idéia era auto-ironia, mas no fundo sabia ser inércia.

“Você não sabe droga nenhuma de tempo e respeito!” meu texto sobre comédia romântica nos anos 2000 pisado, “O que sabe é fingir que o pouco que você sente é muito e maior do que tudo mais! Seu idiota, entendeu?! Você é um imbecil que nunca vai mudar porque perde muito tempo achando que vale muito! Se fosse realmente alguém de valor não passaria a vida inteira jogando fora as coisas que lhe caem no colo! Não vomitaria suas cretinices em cima de tudo que fizemos!”, não registrei o choro como algo importante porque já o esperava, e não sabia se era artifício. Na verdade, não saberia medir o peso de todas as coisas oferecidas no momento, as lembranças. E sentia vergonha por não saber.

Então caíram o laptop, meu porta-lápis, nossas fotos sobre a estante. As coisas reencontraram seu lugar com o bater da porta e as chaves dela caindo no corredor. Sinal claro de quão longe eu tinha ido desta vez. Depois de um tempo desisti de esperar algo vindo de mim e ajoelhei para tentar ligar o computador e remexer as folhas. Passei minutos, ou não sei mais quanto, conferindo o que estava salvo no HD e o que eu tinha impresso, comparando as versões. Pesando minhas maiores mentiras e grandes truques. Apaguei tudo no laptop e fiz meu último gesto de amor a ela arremessando a coisa na parede. Os textos sobre nós guardei na gaveta.

O que sobrou eu queimei.

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