Não iria voltar. Não voltaria se perdesse o ponto. Contava cada um deles no caminho do ônibus, já havia sido difícil chegar até ali. Não iria voltar. Rolava as palavras entre os lábios, murmurando, o que dizer? As citações de música, poesia, os grandes autores de todos os tempos – um ponto. Quando tudo ficou tão difícil, espremido entre dias ocupados? E incerteza quanto ao que mantinha guardado, o que era seu.

“Me perdoa?”

Torcer as mãos, revirar os olhos – cartas antigas gastas pelo uso. E que viessem! Ele deitaria e tudo pés sobre seu corpo. Erros, escolhas antigas, abuso e vergonha, uma parede para amparar as costas. Oh, mãe, o quanto dói e você não me disse isso, ninguém me avisou sobre nada, nada e só queria saber o porquê e fazer de novo, diferente, mais uma chance eu prometo, faço melhor e certo, não erro e presto – um ponto – atenção, tomo cuidado, acredita em mim, me perdoa?

No fim dos tempos, seria só mais um alguém. Mas era apenas mais um dia e a lembrança de tudo estava com ele. Recostou a cabeça no banco, olhos no teto. Tão pertinho, quando era criança não conseguia alcançar, lá em cima, agora posso e é nada importante. Apertou os olhos, esperando sentir algo parecido com aquela vontade de chegar onde não conseguia, longe, longe – sei fazer, olha! eu sei, de verdade, aprendi olha! pai?

Um ponto e as palavras certas esperando. Quem se atrasou?

Ela estaria lá. Esteve sempre com seus erros, aquilo que não mostrava a ninguém. E ela entendia. Segurava tudo por orgulho, mesmo com a pele rasgando, sentindo falta do que ia no peito, para fazê-la acreditar que era forte, sim, darei conta, nada tão grande assim, já vi antes e sei que acaba rápido. E um sorriso. Sabia que era para deixá-lo bem, fingir que acreditava, escondendo aquele pouquinho de dor que sentia. “Eu acredito em você”.

“Eu sei! Me perdoa?”

Todo aquele esforço era inútil, há algum tempo. Não lembraria das palavras, de nada. A força que tinha se resumia a sustento para suportar o que viria depois dos erros, de coisas mal resolvidas. Resignou-se imaginando que, na hora, faria direito. Sim, seria tudo correto, eu não posso estragar desta vez, não vou… Eu sei o que quero dizer, o que tenho que fazer. Não pode dar errado, quero tanto! por favor.

Um ponto. Outro.

Levantou-se, pouco antes da hora. Em pé segurava a barra do banco à frente, olhando a rua, a mesma rua. Muito frio, metal gelado, o motorista corre muito não posso perder o ponto – eu não volto aqui se passar não vou ter coragem não vou sentir tudo isso de novo, eu não saberia. Olhou para cima novamente. “Olha, tão pertinho agora!”

Encostou a mão no teto do ônibus. Ficou olhando a palma estendida.

“Eu posso, viu? Eu consigo!”

O ponto passara.

Um comentário sobre “

  1. Esse conto é absuuurrrdooo!! Sensacional. Sempre fico tensa, quero pegar a mão do personagem e dizer: “eu vou com você. É claro que você consegue, mas eu só quero que você não tenha mais medo, e por isso vou com você.” Eu VIVO o que você escreve. Entro na narrativa e a tomo minha. Você sempre consegue fazer isso comigo. Sempre.

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