Acordei com uivos terríveis, tenebrosos mesmo. Mas não era Irmão, meu velho labrador. Lá estava ele, no mesmo lugar, sentado na grande e desgastada poltrona de couro, olhando para mim. Como em quase todas as manhãs. Ou madrugadas. Só trazia de diferente o próprio olhar. Aberto, amplo, como que buscando me desmontar em tirinhas de papel. Estava frio no quarto e em dias assim Irmão sempre vinha para a cama. Dessa vez, parecia alerta e foi o que me pôs de pé. Tirando o gosto pela poltrona imunda, Irmão sempre foi mais sábio e atento do que eu. Foi o que me tirou da cama, repito. Isso e os uivos.

Aproveitei-me do chão frio para ir despertando, do quarto, pelo corredor e até a sala. Tinha ainda alguma sujeira do encontro de duas noites atrás, embalagens, garrafas. Pratos sujos em cima da estante de livros. Livros que eu ainda não havia arrumado e deixava alguns sobre a mesinha do corredor, para reforçar minha promessa de pôr ordem em tudo aquilo. A cada nova semana eu colocava mais um exemplar ali, como se o peso de tanto papel enfim me empurrasse para as resoluções. Havia ficado com a grande casa do interior, a casa de férias, do retiro, após a morte de meu pai. Era tudo que me restava dele e ela guardava tudo dele. Dois meses e eu ainda sem saber o quer fazer com aquilo. Com as lembranças e os objetos. Até mesmo com a cidade. Não era ninguém ali, quando muito forasteiro olhado de soslaio no mercadinho. Mas aceitei a herança, deixei São Paulo, a grande. Esse era meu pai, meu desterro. O exílio me parecia a continuação de todos os nossos afastamentos e isso de certa forma me confortava. Esperava ainda encontrar meu pai em suas anotações, fotos. No fundo, aceitar cuidar da casa me fazia sentir como o grande redentor de nossa relação alquebrada. Assumi a missão com orgulho, espantando meus irmãos, pode deixar, dou conta. Mas estava falhando e, como disfarce, inventei as festas para encher a casa. Meus amigos abraçaram de pronto a chance de evitar por três dias a “correria”, e trouxeram seus ruídos. Com corpos e sorrisos pensei que ao menos a energia do lugar se manteria forte, limpa.

Mas as outras noites eram sempre da casa, seus estalos e poeiras. As outras noites eram só nossas, da casa, e também minhas e do Irmão. E gastávamos nosso tempo, tanto tempo, dormindo, comendo e visitando o mercado só quando realmente necessário. E assim a energia da casa seguia sendo a do meu pai. Com seus silêncios, seu pesar. Sua desaprovação era agora a disposição dos móveis, a pouca luz que entrava na casa durante o dia, sua espingarda exposta na parede da sala, em frente à porta. Detestava aquela arma, menos pelos dias em que meu pai tentara me ensinar a matar passarinhos. Mas muito por não conseguir sonhar direito meu entendimento com ele sabendo de seu apreço por aquele objeto. Era inteligente, meu pai. Duro e seco, de poucas palavras, mas ainda capaz de tiradas espirituosas em ocasiões insuspeitas. De alguns olhares doces dirigidos a mim, amor talvez, e essa possibilidade me confortava. Havia esperança ali, eu pensava. Não se empolgue, a arma respondia da parede.

Abri a porta e caminhei descalço até o quintal. Um de meus poucos prazeres descobertos nesses dois meses, caminhar descalço sobre a grama do jardim, às vezes na terra molhada, sob a árvore no meio do terreno. Não sabia de que tipo, não tinha ainda visto seus frutos, da natureza eu entendia muito pouco. A madrugada ainda se agarrava à noite, desesperada, e senti o frio do quarto ali também. O vento e a ausência de Irmão. Ele deveria estar ali, andávamos sempre juntos, Irmão me seguia ou seguia minha sombra. Sempre. Mas eu estava ali só, entre outras sombras, um novo frio. E o uivo, de onde eu não sabia. Mas fiquei um tempo fora da casa, olhando os desenhos escuros da vegetação, e então notei a exatidão daquele uivo. Ou o lobo ou o cão cantava o mesmo som, pelo mesmo tempo. Em intervalos regulares. Em algum curso que abandonei ouvi sobre como nós conferimos emoções e inteligência humanas às coisas da natureza que são na verdade potência, criação e força. Era exatamente isso que eu estava fazendo ali. Julguei ouvir tristeza naqueles uivos. Uma lamentação cansada, como o choro do luto, após dias de uma longa despedida anunciada. O definhamento de alguém querido, sabe? As forças minando a cada dia, a esperança desfalecendo. Sabia que aquela tristeza era minha, só podia ser, mas não sabia de onde. Estive com meu pai no hospital, mas só senti cansaço lá. Era o fim dele, e eu já não buscava mais nada. Para mim, era questão morta. Eu já não lutava mais, nem meu pai.

Em situações assim, em finais e fronteiras da vida, as coisas assumem um peso novo, ficam suspensas, mais leves. A percepção muda para refocar detalhes inúteis ou para aqueles mais importantes e que deixamos de lado por muito tempo. Era assim que eu me sentia, então e afinal. E por isso permaneci ali tanto tempo, com o uivo, o quintal e o frio que adensava. Contornei com o olhar as linhas de cada coisa à minha volta, solo, árvore, me voltei para a frente do terreno. Caminhei até o portão de madeira e pus nele a mão, ambos frios. O portão do meu pai, projetado e posto em pé por suas mãos de escritor. O portão era meu irmão também, também herdeiro da mesma ausência agora. Fiquei tirando lascas da madeira com a ponta da unha e foi aí que não ouvi mais o uivo. Ele e os ruídos do vento. O ar ainda girava, eu via as folhas dançando, mas não ouvia. O frio aumentou e me senti molhado. Senti falta de companhia, do Irmão. E me virei para a casa.

E, da porta fechada, meu pai me olhou.

E mesmo com meu coração me ordenando o terror, pois, eu estava certo, não sonhava, lembro que me incomodou mais a porta fechada. Eu a havia deixado aberta enquanto entrava no quintal. Mas eu a via, sabia, fechada naquele momento gelado. Fechada como? A casa não passara a ser minha, então? Os livros, as histórias? E, agora, por trás de seus vidros, embaçados por sua respiração, estava meu pai. Observando-me com olhos surpresos, temerosos até. Pensei em erguer a mão e acenar, era meu pai afinal, e tudo que fiz foi emitir um gemido baixo, choroso, que meu cérebro pensou ser um “olá”. Pude ver por trás dele, no canto da sala, Irmão com o uivo nos olhos. Aquela tristeza prolongada, exausta, encharcada pelo frio.

E, quando me aproximei tremendo, com medo da vida e da morte de meu pai, com meu peito nu e descalço na terra fria, ele ergueu sua arma de matar passarinhos. Disparou.

Eu, o invasor, morri ali.

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