Mell

Tem coisas que eu não sabia como dizer. Aquelas que via em sonhos, erguidas sobre meu desejo de estar. Pedras do caminho que quero seguir. Às vezes sou a estranha que me encontra pela primeira vez e tento ajudar nessa busca insana. Das minhas partes espalhadas em tantos lugares, durante a noite. Do meu espelho, que sentia vivendo em algum canto. Alguém que haveria de me fazer a mesma casa que abandono enquanto durmo.

E quando encontrei você, senti meu próprio toque, o calor do mesmo corpo que era o meu. Seu cheiro, olhos me convidando a uma imensidão que eu desconhecia. Senti meu chão, suas lágrimas em meu cabelo. Respirei o mesmo ar que você – era só nosso, ninguém na Terra habitava o mesmo lugar. Abracei certezas que outras mulheres desconheciam. Encaixando suas partes em mim eu me reconstruí. De braços, coração. Do peito e do rosto remontei meu andar. Seu sorriso pôs a alma em fuga, para minhas partes dos sonhos, com um porto para o qual voltar.

E soube então que nasci com você das escritas dos deuses, éramos irmãos das montanhas, do infinito acima. Fui moldada no mesmo pedaço de terra que você, minha vida soprada ao mundo junto à sua. Quando lhe encontrei, era retorno ao berço. Os deuses nossos pais haviam determinado a separação de nosso corpo único, a ausência da minha metade era o Amor. Quem eu buscava, vislumbrado em esquinas, de relance, nos mundos que eu visitava enquanto dormia. Encontrá-lo era recuperar a substância deixada em minhas ausências. Quando vi você, me vi inteira de novo. E forças que movem a vida abençoavam meu encontro com o Amor. Minha metade perdida. Era toda, em mim, do nascer até seus beijos.

Mas dos homens que buscam conforto na natureza recebemos estilhaços cortando nossa carne junta. Em quem eu via irmã, filha e mãe, crescia a sombra terrível dos desmandos que nos deixaram sós. O mundo regurgitava nossos corações por medo e rejeição. Não havia mais futuro e desejo – com tanta negação buscando encontrar lugar em nosso divino nascimento eu vi meus lábios costurados. A queda de tanta história, de força e verdade. Dor sem ventre, a inveja que desmontava suas partes em mim, também negava a própria crença. Ainda, erguida, me fiz barreira à destruição.

Sou dada ao nascer do dia – meu é o poder do nascimento. E do rasgo nos mantos de sombras. E assim libertos são meu coração e o amor. Assim permaneço voltada para as águas que inundam cada abraço nosso. Eu queimo com graça. Danço as linhas do nosso futuro, enterro seu desejo em meu peito.

De meus pais eu sei a verdade. Por onde seu mundo vem ao meu. Luto por nosso canto, amor, é nosso direito. Espadas e espelhos que somos de nós. A nos faltar o sol, ainda nos abençoa seu brilho. E o calor você pode encontrar em mim, na pele que já é tua desde o brotar das coisas. Como são guias na minha escuridão os roucos da sua voz. Como é a lei escrita por tuas mãos. Darei à luz outro mundo, eu mudo a realidade ao redor. E deixo em cada lugar que crio minha marca, para que você saiba de mim. O doce do meu nome.

(para Mell e Victor)

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