Todos esperávamos alguma palavra de sabedoria naqueles dias. Estendidos no chão da sala, cabelos entrelaçados, nosso esporte favorito. Às vezes ele assumia um ar pomposo e citava trechos de livros, os piores possíveis. Eu imaginava se mensagens ocultas se esparramavam naquelas frases ou se a escolha por coisas tão deprimentes era pela certeza de que nenhum de nós tinha sequer tocado em tais obras. Mas havia momentos. Tardes em que ele voltava ao violão, noites em claro remoendo histórias de uma juventude histérica e incerta. Mesmo dias em que ele só ouvia e brindava nossa insistência com um sorriso.

Em nosso pequeno grupo corria a certeza de que tudo começava e terminava nela. Sendo mais novos, víamos a história dos dois como uma narrativa mitológica, deuses consumando seu amor e criando mundos e indivíduos. Nos criando. Ela caminhava entre nossos amigos com passos firmes que redesenhavam toda nossa história. Cada um dos rapazes inventava uma forma diferente de disfarçar o tremor e a excitação da presença dela. Uma beleza tão exclusiva e inesperada que hoje tenho dificuldades de precisar seus contornos. Mas trago gravadas com clareza na memória as sensações. E a respiração.

Quando um de nós hoje sussurra sobre ele, faz com a certeza de que aquela época foi o capítulo derradeiro. Que o amor de ambos já tinha narrado todas as linhas possíveis do futuro. Que não havia música ou frase de guitarra que impedisse o caminho dela em direção à explosão de grito e luz que foi nosso momento de despedida. Ver seu sorriso nas fotos, forçar a memória em busca dos cheiros e das cores de seu cabelo. Nada basta mais para aterrar a cratera estourada em nossos corações. Se foram, ele ainda mais só.

Existem noites nas quais imagino sua figura alta e magra tocando em algum lugar, entre sombras e fumaças e comensais indiferentes. Em horas mais doloridas, tenho a firme convicção de que ouvi seu estilo nas cordas, sua guitarra emprestada ao nome fictício de algum músico de estúdio, ecoando em registros de bandas alternativas e de público pequeno. Meus sonhos juvenis anseiam por um disfarce perfeito. Pela esperança de saber que não o encontro porque assim é seu desejo.

Mas não o encontro porque ela se foi. E junto com ela tudo que sabíamos sobre criação e felicidade. Vimos a morte de gigantes, sem funerais. Vimos nossa montanha enegrecer sob uma tempestade que ainda hoje encharca nossas casas. Sem pernas, esquecidos de andar, caímos um por vez em torpores infinitos. O amor havia rejeitado nossos sonhos, não éramos mais importantes a seus olhos.

E passamos o resto de nossas vidas buscando os dois na multidão.

Um comentário sobre “

  1. Pensei em mim. Pensei em amigos. Pensei em Eduardo e Monica, pensei em Cameron Crowe, e pensei que certas coisas só podem acontecer quando somos quase jovens demais. E de repente me bateu uma saudade…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s