Não tenho como lhe dizer exatamente como começou, mas é claro que tudo veio da rotina, longas viagens em um ônibus incapaz de ser confortável. As lembranças que tenho de espaços pequenos, de desespero claustrofóbico, vieram dela. A rotina.

Às vezes o percebia na minha frente. Tentei em ocasiões marcar o lugar ao meu lado, com a bolsa, suspensa na esperança de que em seu ponto ele pudesse ocupar o banco. Em certos dias olhava ao redor buscando suas partes nos vãos entre pessoas, perfumes, a ausência de silêncio das conversas gritadas a todos. Diariamente cúmplices da mesma história.

Seu rosto de traços delicados, gravados sobre pele macia e firme da forma que mais me encantava, talvez apaixonasse meu olhar no repouso da xícara de café, ao lado do escritório. Mas não me apaixonei por nada dele assim tão bonito. Bonito como propaganda, quero dizer, como promessa. O suco de minha saliva foi desperto pela marca em seu braço, grande, acidente de relevo eterno. A cicatriz na pele queimada fazia dança com uma tatuagem antiga e me emocionava toda vez que percebia sua decisão de não cobrir o ferimento com novo desenho. Era meu mapa das coisas que ele havia perdido, guardadas agora como lembrança e dor, que outras mulheres, por engano, achavam encontrar em seus olhos sempre gentis e plácidos. Sabia que minha atenção era percebida por ele. Não importava, era tão grande o desejo que o preço da exposição me fugia.

Eu, que sempre me orgulhava de meus gostos retos, boa moça de família na melhor escola do bairro, me envolvi com um prazer diferente daquilo que sabia de mim. A insistência da minha atenção nos aproximou após tantos e tantos outros dias partilhando o mesmo destino. Trocamos nomes, histórias e, por fim, telefones, do ponto final até o metrô.

Acho que é assim que posso lhe responder o que tanto você me olha desde que passei a comer com a mão, sempre a esquerda. Herdeira, de minha mãe, dos bons modos à mesa e à vida, autora do grande livro da boa etiqueta, fui reconstruída como glutona selvagem. Cada sabor e textura em contato com a pele, saliva purificando a ponta dos dedos. Água clara, sabões perfumados, mantinham minha pele macia e apuravam sua capacidade de conhecer pelo toque.

Em nosso amor podia ler tudo dele em seus braços seguros sobre mim. O toque liso e áspero, seda bruta e seca, alternando seu espírito com calor e suor. Deslizava meus dedos pela fronteira entre o que ele era antes e depois. As linhas da dor, do susto e do medo. Beijava a coragem com a qual exibia suas histórias, grimório entregue em camisas de mangas curtas.

A origem do meu desejo nunca soube. Não perguntei, não era um assunto entre nós. Só sabia o que minha mão conseguia registrar. Não importava tanto o nascimento de suas dores do que a forma como ele as carregava. E a doçura, os risos, a beleza de nossos dias encapsulados fora do tempo em seu quarto.

Depois dele li todo o meu mundo com a mão. A chuva, a terra. Meu alimento, meu corpo. Estico os dedos no frio da janela e busco imaginar minha pele aquecida na recordação de suas marcas.

Sou carne aberta agora, sangro e respiro na superfície.

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